Debian Linux lançado. E a futura versão como sairá?
O projeto Debian precisará evoluir. Mas jamais dividir-se. E tem esperto querendo se aproveitar.
Após o hercúleo esforço para lançar o novo Debian GNU / Linux 3.1 Sarge, com 15490 pacotes, 14 cds, 11 plataformas suportadas, e todos as dificuldades envolvidas, começaram a ebulir novas idéias de como fazer o próximo release.
O trabalho para manter essa quantidade enorme de programas rodando em 11 plataformas distintas é muito, muito grande.
Ajudou a atrasar o lançamento da versão atual.
Note como o instalador tem de funcionar nas 11 plataformas. Desde hand helds até mainframes.
E cada programa tem seu ciclo próprio de desenvolvimento, que os desenvolvedores Debian procuram compatibilizar com o ciclo Debian Linux.
Sem falar que o projeto Debian não é uma entidade comercial e produz tudo isso com recursos mínimos.
Alguns artigos interessantes sobre possíveis soluções apareceram:
Debian: where we should go from here? Importante ler os comentários também. Você pode encontrar uma boa tradução pronta em português aqui, porém sem os valiosos comentários ao artigo em inglês.
Debian Core and Universe
Mas aí começaram a surgir rumores de uma negociação entre empresas para se agruparem em torno de um núcleo baseado em Debian Linux, o Debian Core Consortium.
Cuidado com o andor que o santo é de barro.
Vamos analisar as partes.
Rumores:
o projeto Debian sempre debate em suas listas de discussão os seus rumos. Não faz em sigilo. O processo é aberto. Quem iniciou esse movimento em torno do Debian Core Consortium (DCC) foi uma empresa, a Progeny.
Convidou várias outras, até a Mandriva, que declinou, para se agrupar em torno de um núcleo mínimo comum baseado no Debian e "componentizar" seus sub-sistemas.
Você pode ver mais nesses artigos (importante ler os comentários dos leitores também):
Details emerge about Debian Linux Plan.
Debian Linux: Living in interesting times.
Debian Core Consortium continues to come together.
Editor's note: Band of brothers.
Empresas se agruparem:
Empresas possuem sua própria agenda: resolverem seus próprios problemas (lucro, participação de mercado).
Software livre possui outra agenda: resolver os problemas das PESSOAS (no trabalho, na escola, em casa).
Cada empresa, em princípio, "puxa a brasa para sua sardinha".
Por isso é tão difícil que os órgãos de padronização consigam chegar a um acordo sobre qualquer padrão. É um longo e difícil processo de negociação. Há muitos interesses conflitantes.
Ainda assim iniciativas louváveis como o Linux Core Consortium e o Linux Standards Base andam bem mais rápido que outros institutos de padronização.
O que quero ressaltar é a diferença entre agenda das empresas e agenda do software livre. Lucro X Pessoas.
A iniciativa pode ter sucesso quando encontrar a intersecção entre as duas agendas.
Mas se uma delas, ou um pequeno grupo, for percebido tirando vantagem, a iniciativa morre também.
Leia mais nos artigos nos quadros em destaque.
Núcleo baseado em ....
Aí está o ponto principal deste meu artigo.
Em vez de participar no projeto Debian Linux para resolver os pontos fracos, um grupo de empresas está se agrupando em torno de uma variante do projeto para poder minimizar os custos e poder ter maior participação de mercado.
O pior de tudo é que o "puxador do samba", a Progeny, já tentou algo parecido antes e quase quebrou, como pode ser visto nos artigos em destaque.
Em vez de se unificarem em torno do Debian Linux, essas empresas querem se unificar em torno de uma variação do Debian Linux.
O projeto Debian Linux hoje já é uma força grande, com um capital humano gigantesco e um contrato social que o mantém coeso e atrai mais desenvolvedores.
Além das dezenas de milhares de desenvolvedores dos programas fonte independentes, o projeto Debian Linux agrupa hoje mais de 1500 desenvolvedores oficiais e muitos colaboradores ocasionais ou regulares.
E ser aceito como desenvolvedor Debian Linux não é trivial. O processo está documentado no site Debian Linux para os candidatos se prepararem.
Atualmente existe muito pouco espaço para uma empresa lançar uma distribuição Linux em caixinha de prateleira e ser um negócio viável.
Até as grandes distribuições comerciais entenderam que é preciso agregar valor com serviços.
E quem mais ganha dinheiro com Linux, a IBM e a HP, sequer vendem distribuições Linux.
Vendem serviços de suporte.
Veja os artigos sobre como ganhar dinheiro com linux.
Essas iniciativas, bem como o Ubuntu, surgiram como respostas rápidas de empresários às lacunas que o projeto Debian GNU / Linux é ainda lento para resolver.
Como o projeto Debian GNU / Linux é um organismo de decisão primariamente colegiado e baseado em meritocracia, as mudanças de rumo são lentas até convergirem.
Mas o resultado são ações inteligentes, fortes, incisivas e que não podem ser bloqueadas devido ao peso do grupo.
Com esses princípios o projeto Debian GNU / Linux criou uma distribuição estável, sólida, de bom gerenciamento, de alto desempenho e robusta.
Com alicerce no orgulho de excelentes programadores verem um trabalho bem feito com seu nome, resolvendo problemas reais.
Conclusões:
Uma das principais pilares do projeto Debian GNU / Linux é seu contrato social (abordado em outro artigo deste blog).
Sendo o Debian uma distribuição não comercial forte, o caminho é reforçá-lo, evoluir, resolver os pontos fracos, preparar-se para mais crescimento, agregar boas idéias, e em torno dele, participando, desenvolver planos de negócio.
O que está funcionando hoje são os serviços agregados. Veja porque nos artigos em destaque.
Assim, a proposta geral do UserLinux é a que mais faz sentido.
Porque ela não tenta "puxar a brasa para sua sardinha".
Não tenta fazer uma variação do Debian, mas é um CDD, custom Debian Distribution.
É uma proposta de organização em torno do Debian sem modificá-lo, apenas adotando um subconjunto para suportar.
É bom que empresas se agrupem, mas para resolverem problemas do projeto Debian Linux e seus. Não para se aproveitarem do Debian para resolverem seus problemas.
Recentemente, a Canonical Ltd, doou US$ 10 milhões para criar a Fundação Ubuntu, que está fazendo uma nova distribuição desktop baseada em Debian Linux, mas que se desvia cada vez mais do mesmo.
Esse dinheiro é mais que a fundação SPI, do projeto Debian, já teve somado em toda sua história.
Mas a Canonical teria sido mais inteligente no longo prazo em doar ao projeto Debian, que é o alicerce de sua distribuição, e alavancar o grupo de trabalho Debian no Desktop. A Canonical tem 38 desenvolvedores. O projeto Debian tem mais de 1500. Quanto mais o Ubuntu desviar do Debian Linux, mais caro ficará seu desenvolvimento.
Uma empresa não é mais esperta que a comunidade.
Ela terá sucesso se for esperta COM a comunidade.
Afinal, quem tem o controle?
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